Um Português muito antigo continua presente em falares de muita gente no Brasil e também em outras regiões lusófonas espalhadas pelo mundo. Aqui em nosso país, este falar, que revela uma permanência de elementos do idioma da época de Camões – ou até antes do tempo de vida do autor de Os Lusíadas – quase sempre é confundida com “falta de cultura”, no sentido de “carência de conhecimentos”.
Assim é que “nós, os cultos”, cheios de classeocentrimo, encaramos com um sorriso superior e desdenhoso ou mesmo nos escandalizamos ostensivamente quando ouvimos alguém dizer “carça” ao invés de “calça”, “bassoura” ao invés de “vassoura”, “bamo” ao invés de “vamos”, “mió” ao invés de “melhor” e várias outras tantas palavras ainda usuais. Julgamos, “nós, os esclarecidos”, estarmos diante de “gente ignorante”, que “não sabe falar corretamente”. Talvez se, de fato, tivéssemos conhecimentos mais vastos e um respeito humano maior, poderíamos ponderar que, antes de “erros”, estamos diante de formas de falar o Português (um dialeto ou semi-dialeto) que mantém laços com os falares antiguíssimos, trazidos pelos primeiros lusitanos que ocuparam o território brasileiro; resquícios de um modo de falar que já foi dominante e permaneceu conservado em determinadas comunidades em nosso país.
Acontece que as pessoas (enquanto grupo ou individualmente) que se usam de um vocabulário com tais “arcadismos” são seguidamente objetos de preconceito, que leva à discriminação. Piadas e gozações humilhantes são a demonstração e, ao mesmo tempo, um meio de difusão e reforço à exclusão do caboclo e do “vileiro”, ambos personagens segregados na periferia urbana brasileira.
O padrão dito “culto” do Português deriva de um processo, em última instância, baseado em arbitrariedades de quem, historicamente, detém o poder político-econômico – e não de alguma “inteligência mais elevada”. Ou seja, se falar “carça”, “bassoura”, “bamo”, “mió” não significa “inferioridade mental”, mas, simplesmente, a manutenção de traços lingüísticos com origens lá no Latim – o idioma trazido pelos soldados romanos já no século III a.C para a Península Ibérica, e que, em combinações múltiplas e complexas ao longo da história, veio a dar no Português de hoje, que, como língua viva, não parou nem vai parar de alterar-se na interação com diversos fatores da contemporaneidade.
Enfim, os falares “sertanejos”, “interioranos”, “caboclos”, “serranos”, “dos pobres”, “dos incultos” são variantes que deveriam ser mais estudadas, e não desprezadas como se fossem excrescências, subprodutos, lixos lingüísticos inaproveitáveis. Ao contrário: são, como já foi dito, permanências – do Português arcaico, como é chamado pelos estudiosos – que, por tradições culturais localizadas ou/e pelo isolamento geográfico, social e econômico de certas populações, manifestam a rica diversidade brasileira, e também de outros lugares do planeta, que usam “a última flor de Lácio” (como diz o poema de Olavo Billac, se referindo ao Português, uma língua com raízes na região central da atual Itália) com instrumento de comunicação.
* Num texto da primeira metade do século XV, a Crônica de D. Fernando, lê-se palavras grafadas exatamente assim: poboo ao invés de povo (o que era “b” virou “v”, como no caso de vassoura, que muitos ainda dizem “bassoura”); senssivees ao invés de sensíveis; fremosa ao invés de formosa; acreçentamento ao invés de acréscimo; comsselhou ao invés de aconselhou, etc.
** Li no Caderno de Cultura de ZH (26/02/05) a entrevista com o diretor do filme Língua, Victor Lopes. É sobre o Português falado em diversos lugares do planeta. “Toda noite, 200 milhões de pessoas sonham em Português”, diz o moço nascido em Moçambique (mas de nacionalidade portuguesa e radicada no Brasil há 28 anos – ele tem 41). Lopes também diz que é uma “relação de afeto” que faz uma língua sobreviver, mesmo sendo uma “entidade mutante”. Pela diversidade de comunidades lusófonas espalhadas por todos os continentes, Lopes afirma que “a língua portuguesa continua um grande laboratório da troca entre pessoas de culturas variadas”, completando: “O Brasil é um universo em si e a maneira como a língua é falada aqui também. O português mais bonito para mim é do Nordeste. Fico absolutamente fascinado porque mesmo os analfabetos usam a língua de uma maneira tão rica, tão forte: falam corretamente, misturam português arcaico com elementos africanos e gírias contemporâneas. É muito bonito.” Dizem que o filme nos faz observar a importância e complexidade gramatical, histórica, cultural e até geográfica do Português; faz-nos sentir “apaixonado[s], encantado[s] pela língua portuguesa”. Lopez assevera: “Brasileiro tem mania de subestimar sua língua, de achar que o inglês é mais importante”.
*** No livro O que é o português brasileiro, o autor, Hildo H. do Couto, lingüista e professor da UnB, propõe uma comparação entre três frases grafadas no chamado “português culto”, no “português caboclo” e em inglês. Respectivamente: “Todas as meninas pequenas chegaram atrasadas”; “As menina pequena chegô tudo atrasado” e “All the young little girls arrived late”. Após esclarecer que a variante cabocla nada mais é de que um desenvolvimento particular da língua portuguesa e não algum tipo de aberração, diz que a frase é perfeita “do ponto de vista da informação a ser transmitida”. O lingüista destaca que “a frase culta informa seis vezes (em todas as palavras) que se trata de mais de um (plural), e cinco vezes “que se trata de ser do sexo feminino”. Sem esta profusão de indicações de número plural e ser feminino, Couto pergunta: “quem ousaria dizer que a frase cabocla não informa tudo que a culta informa?” A seguir, compara a frase equivalente em inglês (anotada acima) com as variantes “culta” e “cabocla”, concluindo que o a fala característica de regiões interioranas do Brasil se aproxima muito mais da língua mais “chique” e internacional do mundo contemporâneo. Encerra o seu raciocínio dizendo que “o conceito de ‘bom’, ‘correto’, ‘superior’ e outros semelhantes não são absolutos, mas relativos a contextos”.
Para se ter prazer em ler e escrever é preciso ir além da gramática, das escolas literárias e técnicas prontas.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
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